sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Pré-história: os primeiros grupos humanos

              Em harmonia instintiva, os animais agem em sua natureza regidos por leis biológicas. Um mamífero, que faz parte de um grupo “superior”, também age por instintos, entretanto, desenvolve comportamentos mais flexíveis e lógicos. Ao deparar-se com situações problemáticas, os mamíferos são capazes de encontrar soluções, após analisar a situação, porque utilizam da inteligência. A experiência vivida mostra que a capacidade de lembrar e corrigir erros são o grande diferencial do mamífero. Porém, nem todos os mamíferos desenvolvem sua capacidade cerebral igualmente.
           O Homem é o ser que melhor agrupa informações e experiências em sua memória. A inteligência existe em todos os seres deste grupo, entretanto, é o saber que torna o ser humano diferente. Só o homem é transformador da natureza, e o resultado desta transformação chama-se Cultura.  Mas, para produzir cultura, o homem precisa da linguagem simbólica. Os símbolos são invenções humanas por meio das quais o homem pode lidar abstratamente com o mundo que o cerca. A linguagem introduz o homem no tempo, porque permite que ele relembre o passado e antecipe o futuro pelo pensamento. Isso é o que chamamos de produção histórica. Ao fazer uso da linguagem simbólica, o homem torna possível o desenvolvimento da técnica e, portanto, do trabalho humano.
           A linguagem simbólica e o trabalho constituem, assim, os parâmetros mais importantes para distinguir o homem dos animais. Ao definir trabalho humano, assinalamos um binômio inseparável: o pensar e o agir. A própria condição humana é de ambigüidade.
        Quando nos referimos ao homo sapiens, enfatizamos a característica humana de conhecer a realidade, de ter consciência do mundo e de si mesmo. A denominação homo faber é usada quando nos referimos à capacidade de fabricar utensílios, com os quais o homem se torna capaz de transformar a natureza. Pensar e agir são inseparáveis, isto é, o homem é um ser técnico porque tem consciência, e tem consciência porque é capaz de agir e transformar a realidade. Ao fabricar um utensílio, o homem pré-histórico criara um prolongamento do próprio corpo: o arco e a flecha o manterão o mais longe possível da caça, por exemplo. Em breve, ele não matará apenas para sobreviver. Há o assassinato, a consciência da morte, a dor e também o prazer de matar o inimigo.
          Analisar a Pré-História é observar um percurso que vai girando no tempo e desemboca nas Civilizações, nas cidades, no Estado Monárquico, nas guerras, nas artes. No continente africano foi descoberta a mais antiga ferramenta de pedra de que se tem notícia: uma faca de aproximadamente 2 milhões 600 mil anos de idade. Ela foi produzida pelo Australopithecus, primeira espécie a estabelecer o diálogo entre a mão e o cérebro, a transformar uma coisa em ferramenta. Esse período inicial de produção de ferramentas rudimentares de pedra é chamado de Paleolítico.
            No Paleolítico, os grupos humanos eram nômades e viviam da pesca, da coleta de frutos e da caça aos pequenos animais para conseguir alimentos. Nessas sociedades não havia necessidade de força física para a sobrevivência, e nelas as mulheres possuíam um lugar central. A comunidade coletiva era Matricêntrica. A mulher era considerada um ser sagrado, porque pode dar a vida (linearidade) e, portanto, ajudar a fertilidade da terra e dos animais. Sociedade Matrilinear é o sistema de filiação e de organização social no qual só a ascendência materna é levada em conta para a transmissão do nome, dos privilégios, da condição de pertencer a um clã ou a uma determinada classe social. Nos grupos matricêntricos, as formas de associação entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder nem a da herança, por isso a liberdade em termos sexuais era maior. Por outro lado, quase não existia guerra, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios. Com o passar dos anos, as ferramentas foram sendo aperfeiçoadas: a invenção da lança e, mais tarde, a do arco e flecha facilitaram bastante as caçadas.
             O uso sistemático do fogo, possivelmente a cerca de 500 mil anos, passou também a distinguir o homem dos outros animais. Graças a ele, as cavernas e as moradias construídas pelos humanos contavam com uma fonte de luz, calor, proteção e o cozinhar dos alimentos. O homem do Paleolítico desenvolveu, também, a linguagem oral, a fala, apesar da longa demora para ser construída, foi um dos passos importantes na construção da humanidade, permitindo ao homem partilhar com seus semelhantes conhecimentos, experiências e sentimentos, tornando-se, assim, o fator decisivo no desenvolvimento da Cultura.

TEMPO E HISTÓRIA

Raquel Glezer
A relação entre o Tempo e a História é tema inesgotável, com questões, problemas e propostas analíticas, campo de conflito insolúvel entre filósofos e historiadores, que pode ser explorada sob múltiplos aspectos, cada uma delas aparentemente encerrada em si mesma, e na prática inter-relacionada com todas as outras (1).
Diversamente da percepção, hoje consensual entre os historiadores, de que o tempo da história é diferente do tempo da ciência – o conceito de tempo dos historiadores não é o utilizado pelas outras ciências, o confronto entre a reflexão em abstrato e o manejo empírico do 'corpus documental' é questão ainda sem conclusão, parte integrante das reflexões filosóficas e das historiográficas, que se colocam em termos divergentes e opostos, mas que podem e devem ser complementados (2).
Para historiadores, tempo é tanto o elemento de articulação da/na narrativa historiográfica como é vivência civilizacional e pessoal. Para cada civilização e cultura, há uma noção de tempo, cíclico ou linear, presentificado ou projetado para o futuro, estático ou dinâmico, lento ou acelerado, forma de apreensão do real e do relacionamento do indivíduo com o conjunto de seus semelhantes, ponto de partida para a compreensão da relação Homem – Natureza e Homem – Sociedade na perspectiva ocidental (3).
Tempo é palavra de muitos significados, e em alguns deles empregado como sinônimo de passado, ciclos, duração, eras, fases, momentos ou mesmo história, o que contribui para o obscurecimento das discussões teóricas dos historiadores sobre ele, e acaba confundindo o público leitor (4).
Da noção de tempo civilizacional derivaram filosofias, teorias, historiografias, com seus calendários, cronologias, periodizações por momentos, seleções de fatos marcantes – elementos mutáveis a cada leitura, a cada narrativa historiográfica, sempre datada, quer a de nacionais quer a de estrangeiros (5).
Historiadores convivem com as tensões inerentes ao tempo em que vivem e as formas de análise e compreensão, instrumentalmente dadas. Sabem que estão imersos no tempo, no seu tempo, e, simultaneamente devem trabalhar com ele, para os atos da profissão, no 'corpus documental' selecionado para pesquisar o tema, o assunto, o objeto de estudo em um dado momento: organizar, recortar, dividir, estruturar, analisar, compreender, explicar, generalizar, teorizar, sintetizar...
Do mito à História, do tempo cíclico ao linear progressivo, ao teleológico e ao devir, da causalidade primária seqüencial cronológica às temporalidades braudelianas (6); da passagem do tempo da natureza ao tempo social (7), do tempo do trabalho natural ao tempo do trabalho industrial (8), o tempo real como fronteira última (9) – todas estas transformações marcaram as relações dos homens com o passado, e atuam em seu presente tanto em seus atos como nas formas de percepção do passado.
Para os historiadores do contemporâneo, os seres humanos passaram do Tempo dominante da natureza ao Tempo dominado pelo homem e depois ao homem dominado pelo Tempo (10).
Depois que a História formalmente se estruturou como um campo de conhecimento, muitos dos historiadores do século XIX estavam preocupados com a ordenação cronológica dos fatos, que era uma das formas possíveis de organizar o conjunto documental, e que acabou sendo a dominante, pois quase sempre permitia a estruturação causal explicativa (11). Contudo, as transformações econômicas, políticas e culturais do século XX, principalmente as da segunda metade, romperam com os critérios europocêntricos que ainda eram dominantes e com as estruturações históricas uniformes e hierarquizadas, muitas vezes preconceituosas (12).
A História passou a ser diferenciada: de quem e para quem? Qual é o passado que cada Nação, cada Estado, cada grupo social deseja e valoriza? O passado deixou de ser único e unívoco, mesmo para uma mesma sociedade. Vencedores e vencidos nas lutas sociais, culturais, econômicas e políticas disputam os espaços da memória social, buscando encontrar o próprio significado (13).
A quebra da uniformidade histórica hierarquizada trouxe para historiadores, especialmente para os do campo da história da cultura, a riqueza diferenciada das culturas e civilizações, o respeito ao outro, ao diferente, ao divergente, o pluralismo cultural e o multiculturalismo. Talvez alguns problemas conceituais possam surgir do relativismo cultural mas, por enquanto, esse é dominante.
As transformações culturais ocidentais, que se difundiram pelos espaços dominados pela civilização ocidental européia, trouxeram tempos diversos para a contextualização histórica, e para cada tipo de fenômeno a ser estudado existem diversas possibilidades de escolha de temporalidade: longa, estrutural, milenar – para os fenômenos de longa duração, como estrutura familiar, mentalidades, relação com o meio ambiente; média, conjuntural, secular ou semi-secular – para os fenômenos econômicos, sociais ou culturais, como ciclos de economia, estruturas sociais, formação econômica - social, crenças religiosas ou políticas; ou ainda, curta, factual, anual ou quase que diária, como a política cotidiana, os movimentos da economia, as transformações nas relações culturais em veículos de comunicação de massa etc (14).
Qualquer que seja a temporalidade escolhida pelo historiador, ela passa a integrar o objeto de estudo desde a seleção do tema, na escolha das fontes – escritas, iconográficas, objetos tridimensionais, no viés analítico do campo, no conceitual teórico selecionado; fica interiorizada no objeto, e os marcos de periodização, datas iniciais e finais do estudo, são apenas recortes temporais, que devem guardar coerência interna, e não elementos de explicação causal.
Como sabem os historiadores, o século XX pode ser longo (15) ou curto (16), dependendo dos critérios do autor e dos elementos selecionados para dar significação e conteúdo ao que pretende estudar.
As opções epistemológicas, as formulações teórico-metodológicas, as características lacunares do trabalho não ficam claras para o público leitor não especializado, pois a narrativa historiográfica tende a elidir tais aspectos.
A passagem da História para as Histórias; do Tempo da História, linear, progressivo, teleológico para as temporalidades da História são transformações que estão integradas no campo neste início do século XXI e se projetam para os próximos anos, em prospectiva.
As questões que sinteticamente relacionamos continuam em debate no campo teórico, como temas para especialistas, mas relativamente restritas, relegadas muitas vezes pelos próprios historiadores, e totalmente desconhecidas para o público leitor dos livros de história – que tende a considerar a narrativa historiográfica como passado, verdade e o tempo de outrora.

Raquel Glezer é historiadora, doutora em História Social, professora titular de Teoria da História do Departamento de História/FFCLH/USP e diretora do Museu Paulista/USP.


Notas e Referências
1 Domingues, I. O fio e a trama: reflexões sobre o tempo e a história. São Paulo: Iluminuras; Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1996.
2 Toulmin, J. e Goodfield, J. El descubrimiento del tiempo. Buenos Aires: Paidos, 1968; Cardoso, C. F. "O tempo das ciências naturais e o tempo da história" In: Ensaios racionalistas. Filosofia, Ciências Naturais e História. Rio de Janeiro: Campus, 1988, p. 25-40; Rossi, P. Os sinais do tempo. História da terra e história das nações de Hooke a Vico. São Paulo: Cia das Letras, 1992; Koselleck, R. Le future passé: contribution à la sémantique des temps historiques. Paris: Ed. Ehess, 1990; Périodes. La construction du temps historique. Actes du Ve. Colloque D'Histoire au Présent. Paris: Ed. Ehess; Histoire au Présent, 1992.
3 Auerbach, E. Mimesis. A representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1971.
4 Como em títulos em que são indicativos de periodização: O tempo das catedrais, A era das revoluções, O tempo do Quixote... Ou em ensaio de ego-história, como em Ariès, P. O tempo na história. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989. Ou um conceito – a economia-mundo, como em O tempo do mundo, que é o do 3o. volume de Civilização material, economia e capitalismo, séculos XV-XVIII de F. Braudel.
5 Toulmin, J. e Goodfield, J. El descubrimiento del tiempo. Buenos Aires: Paidos, 1968; Pomian, K. L'ordre du temps. Paris: Gallimard, 1984; Cardoso, C. F. "O tempo das ciências naturais e o tempo da história" In: Ensaios racionalistas. Filosofia, Ciências Naturais e História. Rio de Janeiro: Campus, 1988, p. 25-40; Rossi, Paolo. Os sinais do tempo. História da terra e história das nações de Hooke a Vico. São Paulo: Cia das Letras, 1992; Koselleck, R. Le future passé: contribution à la sémantique des temps historiques. Paris: Ed. Ehess, 1990; Périodes. La construction du temps historique. Actes du Ve. Colloque D'Histoire au Présent. Paris: Ed. Ehess; Histoire au Présent, 1992; Wehling, A. "Tempo e história nas diferentes culturas" In: A invenção da história: estudos sobre o historicismo. Rio de Janeiro: U. Gama Filho; UFF, 1994, p. 51-8.
6 Braudel, F. "La longue durée" In: Écrits sur l'histoire. Paris: Flammarion, 1969, artigo publicado inicialmente na revista Annales – ESC, em 1958. Há tradução em português.
7 Le Goff, J. Para um novo conceito de Idade Média. Tempo, trabalho e cultura no Ocidente. Lisboa: Estampa, 1980.
8 Thompson, E.P. "Tiempo, disciplina y capitalismo" In: Tradición, revuelta y consciencia de clase. Estudios sobre la crisis de la sociedad preindustrial. Barcelona: Critica, 1979.
9 Chesneaux, J. De la modernité. Paris: la Découverte-Maspero, 1983.
10 Glezer, R. "O tempo e os homens: dom, servidor e senhor" In: Contier, A. D.(org.) História em debate. São Paulo: INFOUR/CNPq, 1992, p. 257-268.
11 Ver em Langlois, Ch-V. et Seignobos, Ch. Introduction aux études historiques (1898), préface de Madeleine Rebérioux. Paris: Ed. Kimé, 1992.
12 Ver esp. Chesneaux, J. Du passe faisons table rase? A propôs de l'histoire et des historiens. Paris: Maspero, 1976; e, Ferro, M. Comment on raconte l'histoire aux enfants, à travers le monde entier. Paris: Payot, 1981, - L'histoire sous surveillance, science et conscience de l'histoire. Paris: Calmann-Lévy, 1985. Há tradução em português.
13 Ver esp. Dosse, F. A história em migalhas: dos Annales a Nova História. São Paulo: Ensaio, 1992; Dicionário das ciências históricas, org. de André Burguière. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1993; Bédarida, F.(dir.) L'histoire et le metier d'historien en France, 1945-1995. Paris: Éd. de la Maison des sciences de l'homme, 1995; Boutier, J. et Julia, D. Passados recompostos: campos e canteiros da História. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/FGV, 1998; Ruano-Borbalan, J.-Cl. (coord.) L'histoire aujourd'hui. Auxerre/Fr: Sciences Humaines Ed., 1999.
14 Braudel, F. "La longue durée" In: Écrits sur l'histoire. Paris: Flammarion, 1969.
15 Arrighi, G. O longo século XX. Dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. São Paulo: Contraponto; Edunesp, 1996.
16 Hobsbawm, E. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

São Rafael

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História e Historiadores

Rogério Dezem (2006)
Nas palavras do escritor e político romano Cícero (106-43 a. C.), a História pode ser definida como a testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, anunciadora dos tempos antigos (Historia testis temporum, lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae, nuntia vetustatis), belas palavras que sobreviveram ao tempo e que podem nos dar uma amostra do grande âmbito e da importância que o estudo histórico comporta.
Mas quando e onde surgiram os primeiros "historiadores"? É quase uma unanimidade no Ocidente citar a figura do grego Heródoto (484-424a. C.) como o "Pai da História". Sua obra Histórias, cuja essência parte "de uma extraordinária combinação de cronologia, etnologia, geografia e poesia"[1], possui uma linguagem corrente e fácil de entender. Segundo estudiosos da obra de Heródoto, seu mérito é o de ser considerada uma "importante fonte de informações sobre o mundo antigo"[2] e a pioneira a se basear em uma narrativa de caráter histórico. Pois o "material" recolhido, ou seja, suas fontes, se encontravam a partir dos testemunhos verbais que o autor reuniu em suas várias viagens feitas pela Grécia antiga e pela Pérsia. No entanto, muito dos relatos contidos em Histórias tem caráter fantasioso, outros são inconsistentes, pois partem de julgamentos equivocados e da aceitação de fontes não confiáveis[3]. Desse modo, o período da Antiguidade Clássica éconsiderado o berço da Civilização Ocidental e, conseqüentemente, o marco inaugural da História Ocidental.
Por muitos séculos, o que hoje denominamos de História viveu à sombra de outras disciplinas (Teologia e Filosofia), pois seu caráter continuou navegando entre o sagrado (hagiografia, apologias) e o profano (crônicas, narrativas, cancioneiro, biografias, fantasia, literatura). No período do Renascimento (XIV-XVI) a Europa vai viver um momento de renovação de idéias, principalmente da racionalidade (ratio), baseada em pensadores da antiguidade clássica como os gregos Platão e Aristóteles. Neste contexto, o filósofo inglês sir Francis Bacon (1561-1626) deu uma importante contribuição aos estudos ligados às ciências humanas e, conseqüentemente, ao estudo da História. Em um trecho famoso, ao criticar os empiristas, ele parte de uma parábola para dar um objetivo ao que podemos chamar de pesquisa histórica. Vamos a ela:
"Existem os empiristas, que como formigas, simplesmente coletam dados para apresentar suas idéias e teses, já os teóricos puros podem ser comparados a aranhas cujas teias se originavam de seu próprio interior. Bacon recomendava o exemplo da abelha, que não se limita a procurar a matéria-prima; também a transforma".[4]
As artes, a literatura, as ciências, enfim, toda uma visão de mundo começava a se transformar. A História estava associada à Ciência Política (Maquiavel, Hobbes, Locke). Sempre coadjuvante, ou melhor, auxiliar de outras disciplinas consideradas "mais nobres" como a Filosofia, o Direito e depois a Economia, a História, como nós a conhecemos hoje, tinha ainda um longo caminho a trilhar até se firmar como uma disciplina baseada em metodologias e teorias para que pudesse ser considerada uma Ciência.
Foi no século XIX, considerado um dos períodos áureos das ciências humanas, que a Revolução Industrial Inglesa e os reflexos associados diretamente aos acontecimentos na América do Norte (Independência dos EUA, 1776) e a Europa (Revolução Francesa, 1789), imprimiram novos rumos aos estudos da História. É a partir deste contexto histórico que mesmo "hesitando entre arte literária e o conhecimento científico", ela "se torna matéria de ensino"[5].
Pensadores de origem germânica como Immanuel Kant(1724-1804), G.W. F. Hegel (1770-1831), Karl Marx (1818-1880) e Wilhelm Dilthey (1833-1911), desenvolvem conceitos como o idealismo, a dialética, o materialismo histórico e a verstehen, aplicados ao estudo da História. Na Inglaterra temos E. Gibbon (1737-1794), Thomas Babington Macaulay (1800-1859) e na França Jules Michelet (1798-1874) entre outros. No entanto a História recebe o seu estatuto de ciência a partir do historiador germânico Leopold Von Ranke (1795-1886). O método crítico de Ranke tornou-se o modelo de investigação histórica no século XIX na Alemanha e no mundo inteiro. Sua idéia principal se baseava na famosa afirmação de que os historiadores devem estudar "o passado como de fato foi" (wie es eigentlich gewesen) a partir de documentos que "devem falar por si só", ou seja, os historiadores devem tentar "oferecer uma representação factual do passado desprovida de seus pontos de vista, mas devem também ir além dos fatos e buscar as tendências gerais ou as idéias principais que conferem a um indivíduo ou a uma instituição sua personalidade".[6] Foi ainda no contexto da "história rankeana" (fim do século XIX), que as disciplinas da área das ciências humanas como a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, a Geografia e a História, se consolidaram como Scientia, a partir de metodologias e objetivos de estudo delineados. O caminho estava aberto.
O historiador inglês E.H. Carr (1892-1982) foi um dos grandes críticos da visão de História de Ranke, para Carr "os fatos não são averiguados da mesma forma e não 'falam por si mesmos'. Nem são inteiramente produto da criação dos historiadores. (...) os fatos existem à parte do historiador, embora só se tornem 'fatos históricos' quando são considerados historicamente significativos por seleção e interpretação". Segundo o autor da obra Que é História?(What is History?), os historiadores "ocupam-se do diálogo interminável entre o passado e o presente"[7] ·
Dessa forma, no século XX, os debates sobre a História e seus objetivos tomam rumos nunca antes vistos. Surgem novas teorias sobreHistoriografia (estudo da história do pensamento histórico) e sobreHistória, que vão desde a desqualificação do modelo rankeano, passando por várias interpretações da história de cunho marxista, até chegarmos no início da década de 1990 com a publicação de O Fim da História (The End of History, 1989) e de O Fim da História e o Último Homem (The End of History and the last Man, 1992) ambos de autoria do cientista políticonorte-americano Francis Fukuyama (1952-) que"decreta" o fim da História...
No entanto algumas teorias, ou melhor, alguns pontos de vista sobre teorias relacionadas ao papel do estudo da História e, conseqüentemente, do historiador, vieram a se tornar clássicos, pois em grande parte contribuem ainda hoje grandemente para seu estudo e compreensão. Dessa forma devemos apresentar um pouco mais detalhadamente as idéias do historiador francês Marc Bloch (1886-1944), que, juntamente com o também historiador francês Lucien Febvre (1878-1956), em 1929 lançam o periódico Anais de História Econômica e Social ( Annales d'Histoire Economique et Sociale), que sobrevive ainda hoje com o título Anais: História, Ciências Sociais (Annales: Histoire, Sciences Sociales). Surge assim, na França, a denominada Escola dos Annales, também conhecida como Nova História.
O historiador MarcBloch foi um dos primeiros a efetivamente comparar a História às Ciências Exatas e Biológicas. Ele afirmava que "(...) enquanto a Química e a Biologia (...) envolvem análise e classificação, a História em grande medida envolve descrição e narração. Além disso, História e Ciência diferem no que tange ao tratamento dos fenômenos. Enquanto o cientista lida com fenômenos simples que passam apenas por sua consciência, o historiador trata de fenômenos 'psicossociais' que passam tanto pela consciência dele quanto pela consciência do agente histórico. Isso significa (...) que uma miríade de interpretações de acontecimentos passados é possível"[8]. Desse modo, o historiador (aquele que "produz" a História) deve ter o "espírito crítico", pois segundo Bloch "(...) o historiador ao contrário do cientista, é duplamente propenso à fraqueza e à fragilidade da memória humana. Entretanto, a maior parte da obra do historiador consiste em identificar a verdade, aquilo que é falso e aquilo que é provável."[9] Pois "o tempo é parte integrante de seu objeto, é 'uma ciência em marcha'. Para permanecer uma ciência, a História deve se mexer, progredir; mais que qualquer outra, não pode parar."[10]
Portanto, "a História é uma ciência, mas uma ciência que tem como uma de suas características, o que pode significar sua fraqueza, mas também sua virtude, ser poética, pois não pode ser reduzida a abstrações, a leis, a estruturas."[11] E o que vem a ser um historiador competente na visão de Bloch? Para o autor "o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está sua caça", ou seja, o historiador é "um comedor de homens"[12].
Uma outra questão levantada e que é o objetivo principal da obra inacabadaApologia da História, se encontra na questão primordial: Para que serve a História? Segundo Bloch, a História é a "ciência dos homens no transcurso do tempo"[13] ou ainda "o produto mais perigoso que a química do cérebro elaborou"[14]. Ele completa sua definição de forma clara e objetiva ao afirmar que "quando estudada rigorosamente, a história alimenta a imaginação, mas também permite alcançar uma compreensão da história humana. Isso implica reconhecer a busca de evidências como a busca de pistas ao longo de uma variedade de documentos; examinar as evidências levando em conta seu contexto; comparar as evidências; abster-se do julgamento de acontecimentos passados que se baseiam nos padrões morais de alguém; e procurar um vocabulário que represente 'o resumo preciso dos fatos'e ao mesmo tempo preserve 'a flexibilidade de que necessita para se adaptar a descobertas posteriores'"[15].Enfim, "a História é a ciência do tempo e da mudança, colocando a cada instante delicados problemas para o historiador".[16]
Bibliografia:
Bloch, Marc.Apologia da História, ou, O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
Burke, Peter. História e teoria social. São Paulo: Editora Unesp, 2002.
Hughes-Warrington, Marnie. 50 grandes pensadores da história. São Paulo: Contexto, 2002.

[1] Hughes-Warrington, Marnie. 50 grandes pensadores da história. São Paulo: Contexto, 2002. p. 183.
[2] Idem.
[3] Ibidem.
[4] Burke, Peter. História e teoria social. São Paulo: Editora Unesp, 2002. p. 35.
[5] Bloch, Marc.Apologia da História, ou, O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. p. 21.
[6] Hughes-Warrington, Marnie. 50 grandes... op. cit.. p. 290.
[7] Idem. P. 45-46.
[8] Bloch, Marc. Apologia da História& op. cit.. p. 27.
[9] Idem. p. 29.
[10] Ibidem. p. 21.
[11] Ibidem. p. 19.
[12] Ibidem. p. 20.
[13] Hughes-Warrington, Marnie. 50 grandes... op. cit.. p. 32
[14] Bloch, Marc.Apologia da História... op. cit.. p.22.
[15] Idem. p. 33.
[16] Hughes-Warrington, Marnie. 50 grandes... op. cit... p. 63

Leia mais em: http://www.webartigos.com/artigos/historia-e-historiadores/15965/#ixzz1zcNlvlwW